sábado, 6 de junho de 2015

«Vivo sin vivir en mí»


«Ela, da sua penúria, deitou tudo»

Vivo sem viver em mim;

E minha esperança é tal,

Que morro de não morrer.


Vivo já fora de mim

Desde que morro de amor;

Pois vivo no Senhor

Que me quis para Si.

Quando Lhe dei o coração,

Nele inscreveu estas palavras:

Morro de não morrer. [...]


Ah! que triste é a vida

Que não se alegra no Senhor!

E, se o amor é doce,

Não o é a longa espera;

Livra-me, meu Deus, desta carga,

Mais pesada que o ferro,

Pois morro de não morrer.


Vivo só da confiança

De que um dia hei-de morrer,

Pois pela morte é a vida

Que a esperança me promete.

Morte em que se ganha a vida,

Não tardes, que te espero,

Pois morro de não morrer.


Vede como é forte o amor (Cant 8,6);

Ó vida, não me sobrecarregues!

Vê o que apenas resta:

Para te ganhar, perder-te! (Lc 9,24)

Venha ela, a doce morte!

Que minha morte venha bem cedo,

Pois morro de não morrer.


Esta vida lá do alto,

Que é vida verdadeira,

Até que morra a vida cá de baixo

Enquanto se viver não se a tem.

Ó morte, não te escondas!

Que viva porque morro já,

Pois morro de não morrer.


Ó vida, que posso eu dar

A meu Deus, que vive em mim,

Senão perder-te, a ti,

Para merecer prová-Lo!

Desejo, morrendo, obtê-Lo,

Pois tenho tal desejo do meu Amado

Que morro de não morrer.

Comentário do dia:

Santa Teresa de Ávila (1515-1582), carmelita descalça, doutora da Igreja
Poema «Vivo sin vivir en mí»


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