sábado, 24 de outubro de 2015

Papa Francisco

Os tempos mudam

· ​Missa do Pontífice em Santa Marta ·

«Os tempos mudam e nós cristãos devemos mudar continuamente». O Papa Francisco repetiu várias vezes este convite à mudança, durante a missa celebrada na sexta-feira, 23 de Outubro, na capela da Casa de Santa Marta. Um convite a agir «sem medo» e «com liberdade», mantendo-se distante dos conformismos tranquilizadores e permanecendo «firme na fé em Jesus» e «na verdade do Evangelho», mas movendo-se «continuamente segundo os sinais dos tempos».
A reflexão do Pontífice baseou-se nas leituras desta última parte do ano litúrgico, que propõem em particular a carta aos Romanos. «Frisámos – recordou o Pontífice a este propósito – como Paulo prega com tanto vigor, a liberdade que temos em Cristo». Trata-se, explicou o Papa, de «um dom, o dom da liberdade, daquela liberdade que nos salvou do pecado, que nos tornou livres, filhos de Deus como Jesus; aquela liberdade que nos leva a chamar Deus Pai». Por conseguinte Francisco acrescentou que «para ter esta liberdade devemos abrir-nos à força do Espírito e compreender bem o que acontece dentro e fora de nós». E se nos «dias passados, na semana passada», tinha reflectido sobre «como distinguir o que acontece dentro de nós: o que vem do bom Espírito e o que não vem dele», ou seja, sobre o discernimento de quanto «acontece dentro de nós», na liturgia do dia o trecho do Evangelho de Lucas (12, 54-59) exorta a «olhar para fora», fazendo «reflectir sobre como nós avaliamos as coisas que acontecem fora de nós».
Eis então a necessidade de nos questionarmos sobre «como julgamos: somos capazes de julgar?». Para o Papa «temos as capacidades» e o próprio Paulo «diz-nos que julgaremos o mundo: nós, cristãos julgaremos o mundo». Também o apóstolo Pedro diz algo análogo quando «nos chama povo escolhido, sacerdócio santo, nação eleita precisamente para a santidade».
Em síntese, esclareceu o Pontífice, nós cristãos «temos esta liberdade de julgar o que acontece fora de nós». Mas – admoestou – «para julgar devemos conhecer bem o que acontece fora de nós». E então, questionou-se Francisco, «como se pode fazer isto, ao que a Igreja chama “conhecer os sinais dos tempos”?».
A este propósito o Papa observou que «os tempos mudam. É próprio da sabedoria cristã conhecer estas mudanças, conhecer os diversos tempos e conhecer os sinais dos tempos. O que significa uma coisa e o que significa outra». Sem dúvida, o Papa está ciente de que isto «não é fácil. Porque nós ouvimos tantos comentários: “Ouvi dizer que o que aconteceu ali é isto ou aquilo que acontece acolá é outra coisa; li isso, disseram-me isto...». Mas, acrescentou imediatamente, «eu sou livre, devo formar a minha opinião e compreender o que tudo isto significa». Mas «isto é um trabalho que normalmente não fazemos: conformamo-nos, tranquilizamo-nos com “disseram-me; ouvi dizer; as pessoas dizem; li...”. E assim estamos tranquilos». Quando ao contrário deveríamos perguntar-nos: «Qual é a verdade? Qual é a mensagem que o Senhor me quer transmitir com aquele sinal dos tempos?».
Como de costume o Papa propôs também sugestões práticas «para compreender os sinais dos tempos». Antes de tudo, disse, «é necessário o silêncio: fazer silêncio e olhar, observar. E depois reflectir dentro de nós. Um exemplo: por que há tantas guerras agora? Por que aconteceu isto? E rezar». Por conseguinte, «silêncio, reflexão e oração. Só assim poderemos compreender os sinais dos tempos, o que Jesus nos quer dizer».
E neste sentido não há álibis. Com efeito, mesmo se cada um de nós pode ser tentado a dizer: «Mas, eu não estudei muito... Não frequentei a universidade nem sequer a escola média...», as palavras de Jesus não deixam espaço a dúvidas. Com efeito, ele não diz: «Vede como fazem os universitários, reparai como fazem os doutores, vede como fazem os intelectuais...». Ao contrário, diz: «Olhai para os camponeses, para os simples: eles, na sua simplicidade, compreendem quando chega a chuva, como cresce a erva; sabem distinguir o trigo do joio». Por conseguinte «aquela simplicidade – se for acompanhada pelo silêncio, pela reflexão e pela oração – far-nos-á compreender os sinais dos tempos». Porque, reafirmou, «os tempos mudam e nós cristãos devemos mudar continuamente. Devemos mudar firmes na fé em Jesus Cristo, firmes na verdade do Evangelho, mas a nossa atitude deve mover-se continuamente segundo os sinais dos tempos».
No final da sua reflexão o Pontífice voltou aos pensamentos iniciais. «Somos livres – afirmou – pelo dom da liberdade que Jesus Cristo nos deu. Mas o nosso trabalho é examinar o que acontece dentro de nós, discernir os nossos sentimentos, os nossos pensamentos; e analisar o que acontece fora de nós, discernir os sinais dos tempos». Como? «Com o silêncio, com a reflexão e com a oração», repetiu na conclusão da homilia.

«E se não vos arrependerdes, morrereis»



Pobre de mim, a consciência acusa-me sem cessar, e a verdade não pode desculpar-me dizendo: ele não sabia o que fazia. Perdoa, pois, Senhor, pelo preço do teu precioso sangue, todos os pecados em que caí, consciente ou inconscientemente. [...] Sim, Senhor, pequei verdadeiramente, pequei por minha vontade, e pequei muito. Depois de ter tido conhecimento da verdade, ofendi o Espírito de graça; e contudo, aquando do meu baptismo, o Espírito tinha-me concedido de forma gratuita a remissão dos pecados. Mas eu, depois de ter tido conhecimento da verdade, voltei aos meus pecados, «como o cão volta ao seu vómito» (2Ped 2,22).

Ó Filho de Deus, pisei-Te aos pés, negando-Te? Mas não posso dizer que, ao negar-Te, Pedro Te tenha pisado aos pés, ele que Te amava tão ardentemente, embora Te tenha negado uma primeira vez, uma segunda e uma terceira vez. [...] Também a mim Satanás me reclamou por vezes a fé, para me joeirar como o trigo; mas a tua oração desceu sobre mim, de maneira que a minha fé nunca desfaleceu (Lc 22,31-32), nunca Te abandonou. [...] Bem sabes que sempre quis aderir à fé em Ti; protege-me, pois, nesta vontade, até ao fim.

Sempre acreditei em Ti [...], sempre Te amei, mesmo quando pequei contra Ti. Lamento profundamente os meus pecados. Do amor, porém, lamento apenas não ter amado tanto como devia.

Comentário do dia:

Guilherme de Saint-Thierry (c. 1085-1148), monge beneditino, depois cisterciense
Orações meditativas, nº 5

Jesus

Evangelho segundo S. Lucas 13,1-9.
Naquele tempo, vieram contar a Jesus que Pilatos mandara derramar o sangue de certos galileus, juntamente com o das vítimas que imolavam.
Jesus respondeu-lhes: «Julgais que, por terem sofrido tal castigo, esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus?
Eu digo-vos que não. E se não vos arrependerdes, morrereis todos do mesmo modo.
E aqueles dezoito homens, que a torre de Siloé, ao cair, atingiu e matou? Julgais que eram mais culpados do que todos os outros habitantes de Jerusalém?
Eu digo-vos que não. E se não vos arrependerdes, morrereis todos de modo semelhante.
Jesus disse então a seguinte parábola: «Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha. Foi procurar os frutos que nela houvesse, mas não os encontrou.
Disse então ao vinhateiro: ‘Há três anos que venho procurar frutos nesta figueira e não os encontro. Deves cortá-la. Porque há-de estar ela a ocupar inutilmente a terra?’.
Mas o vinhateiro respondeu-lhe: ‘Senhor, deixa-a ficar ainda este ano, que eu, entretanto, vou cavar-lhe em volta e deitar-lhe adubo.
Talvez venha a dar frutos. Se não der, mandarás cortá-la».

Quem poderá subir à montanha do Senhor?

Livro de Salmos 24(23),1-2.3-4ab.5-6.
Do Senhor é a terra e o que nela existe,
o mundo e quantos nele habitam.
Ele a fundou sobre os mares
e a consolidou sobre as águas.

Quem poderá subir à montanha do Senhor?
Quem habitará no seu santuário?
O que tem as mãos inocentes e o coração puro,
o que não invocou o seu nome em vão.

Este será abençoado pelo Senhor
e recompensado por Deus, seu Salvador.
Esta é a geração dos que O procuram,
que procuram a face de Deus.

Os desejos da carne conduzem à morte

Carta aos Romanos 8,1-11.
Irmãos: Nenhuma condenação existe agora para aqueles que estão em Cristo Jesus,
porque a lei do Espírito, que dá a vida em Cristo Jesus, me libertou da lei do pecado e da morte.
Na verdade, o que era impossível para a Lei, por causa da fragilidade humana, foi possível para Deus: Enviando o seu próprio Filho, numa carne semelhante à carne pecadora, como sacrifício de expiação pelo pecado, condenou o pecado na carne,
para que a justiça exigida pela Lei fosse plenamente cumprida em nós, que não vivemos segundo a carne, mas segundo o Espírito.
Os que vivem segundo a carne desejam o que é carnal; os que vivem segundo o Espírito desejam o que é espiritual.
Os desejos da carne conduzem à morte, mas os desejos do Espírito conduzem à vida e à paz.
Na verdade, os desejos da carne são revolta contra Deus, pois eles não se submetem nem podem submeter-se à lei de Deus.
Os que vivem segundo a carne não podem agradar a Deus.
Vós não estais sob o domínio da carne, mas do Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós. Mas, se alguém não tem o Espírito de Cristo, não Lhe pertence.
Se Cristo está em vós, embora o vosso corpo seja mortal por causa do pecado, o espírito permanece vivo por causa da justiça.
E, se o Espírito d’Aquele que ressuscitou Jesus de entre os mortos habita em vós, Ele, que ressuscitou Cristo Jesus de entre os mortos, também dará vida aos vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que habita em vós.

Santo do dia

Sabado, dia 24 de Outubro de 2015

Sábado da 29ª semana do Tempo Comum


Festa da Igreja : Imaculado Coração de Maria, Padroeira de Angola (ofício próprio)
Santo do dia : Santo António Maria Claret, bispo, fundador, +1870 


Imaculado Coração de Maria


A festa litúrgica do Coração de Maria passou por muitas vicissitudes. De acordo com a história, houve primeiramente uma devoção privada ininterrupta, que não chegou a formas públicas oficiais.
Efectivamente, a primeira festa litúrgica do Coração de Maria foi celebrada a 8 de Fevereiro de 1648, na diocese de Autun (França). Em 1864, alguns bispos pedem ao Papa a consagração do mundo ao Coração de Maria, aduzindo como justificativa e motivo a realeza de Maria. O pedido decisivo partiu de Fátima e do episcopado português. Inesperadamente, a 31 de Outubro de 1942, Pio XII, na sua mensagem radiofónica em português, consagrava o mundo ao Coração de Maria. O Papa Paulo VI, a 21 de Novembro de 1964, ao encerrar a terceira sessão do Concílio Vaticano II, renovava, na presença dos padres conciliares, a consagração ao Coração de Maria feita por Pio XII. Mais recentemente, João Paulo II, no fim de sua primeira encíclica, “Redemptor Hominis” (4 de março de 1979), escreveu um significativo texto sobre o Coração de Maria. Ao tratar do mistério da redenção diz o Papa: “Este mistério formou-se, podemos dizer, no coração da Virgem de Nazaré, quando pronunciou o seu “faça-se”. A partir de tal momento, este coração virginal e ao mesmo tempo materno, sob a ação particular do Espírito Santo, acompanha sempre a obra do seu Filho e dirige-se a todos os que Cristo abraçou e abraça continuamente no seu inesgotável amor. E por isso este coração deve ser também maternalmente inesgotável. A característica deste amor materno, que a mãe de Deus incute no mistério da redenção e na vida da Igreja, encontra sua expressão na sua singular proximidade do homem e de todas as suas vicissitudes. Nisso consiste o mistério da mãe”.

A Exortação Apostólica “Marialis cultus” (2/2/1974), do Papa Paulo VI inclui a memória do Coração Imaculado da bem-aventurada Virgem Maria entre as “memórias ou festas que ... expressam orientações surgidas na piedade contemporânea”, colocando-a no dia seguinte à solenidade do Sacratíssimo Coração de Jesus.
Essa aproximação das duas festas (Sacratíssimo Coração de Jesus e Imaculado Coração de Maria) faz-nos voltar à origem histórica da devoção: na verdade, São João Eudes, nos seus escritos, jamais separa os dois corações. Aliás, durante nove meses, a vida do Filho de Deus feito carne pulsou seguindo o mesmo ritmo da vida do coração de Maria. Mas os textos próprios da missa do dia destacam mais a beleza espiritual do coração da primeira discípula de Cristo.
Ela, na verdade, trouxe Jesus mais no coração do que no ventre; gerou-o mais com a fé do que com a carne! De acordo com textos bíblicos, Maria escutava e meditava no seu coração a palavra do Senhor, que era para ela como um pão que nutria o íntimo, como que uma água borbulhante que irriga um terreno fecundo. Neste contexto, aparece a fase dinâmica da fé de Maria: recordar para aprofundar, confrontar para encarnar, refletir para atualizar.
Maria nos ensina como hospedar Deus, como nutrir-nos com o seu Verbo, como viver tentando saciar a fome e a sede que temos dele. Maria tornou-se, assim, o protótipo dos que escutam a palavra de Deus e dela fazem o seu tesouro; o modelo perfeito dos que na Igreja devem descobrir, por meio de meditação profunda, o hoje desta mensagem divina. Imitar Maria nesta sua atitude quer dizer permanecer sempre atentos aos sinais do tempos, isto é, ao que de estranho e de novo Deus vai realizando na história por trás das aparências da normalidade; em uma palavra, quer dizer reflectir, com o coração de Maria, sobre os acontecimentos da vida quotidiana, destes tirando, como ela o fazia, conclusões de fé.

Santo António Maria Claret, bispo, fundador, +1870




Antônio Maria Claret nasceu em 1807, em Allent, província de Barcelona e diocese de Vich. Filho de um modesto tecelão, aos 22 anos ingressou no seminário de Vich, confundido nas aulas de latim com os pequenos de 10 a 12 anos. Trazia no coração a luz do ideal eterno que tinha haurido naquela frase do Evangelho que abriu também horizontes infinitos de luz e entusiasmo a S. Francisco Xavier: “que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro se vier a perder a sua alma?”. Aos 28, foi ordenado sacerdote, dedicando-se de corpo e alma ao serviço ministerial na cidade natal. O seu ideal, entretanto, ultrapassava os limites de sua paróquia. Desejava um apostolado mais amplo. Pensou, então, em se colocar à disposição da Propaganda Fidei. Não era o que sonhava para si. Procurou, pois, ingressar na Companhia de Jesus, o que também não deu certo. Retornou à terra natal como vigário. Logo depois abandonou tudo para se tornar missionário apostólico. Percorreu todas as povoações da Catalunha e das Ilhas Canárias.

Procurou concretizar o seu grande sonho apostólico: fundar uma congregação que se dedicasse ao apostolado das missões, e à evangelização dos povos. Com alguns companheiros sacerdotes, fundou a Congregação dos Missionários Filhos do Coração Imaculado de Maria, popularmente conhecidos como Padres Claretianos. Mais tarde fundou também o Instituto das Irmãs de Ensino de Maria Imaculada. Em 1850 foi nomeado bispo de Santiago de Cuba, onde desenvolveu um apostolado frutuoso. Em 1857 retornou à Espanha, onde exerceu várias responsabilidades eclesiásticas, zelando pela instrução, pelas artes, pelas ciências, fundando bibliotecas. Foi também fecundo escritor, deixando cerca de oitenta obras. Pio XI considerava-o o "precursor da Acção Católica" dos tempos modernos. Com Isabel II esteve também em Lisboa, em Dezembro de 1866. Depois de pregar em várias igrejas da capital, foi agraciado por D. Luís com a Cruz da Real Ordem Militar de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa. Morreu em Fontfroide, França, em 1870. Foi beatificado em 1934 por Pio XI e canonizado por Pio XII em 1950.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Dia nacional pela vida

O sonho de Deus

· Mensagem da Conferência episcopal italiana para o 38º dia nacional pela vida ·

«Todos os que se põem ao serviço da pessoa humana realizam o sonho de Deus»: recordaram os bispos italianos, que difundiram hoje a mensagem para o 38º dia nacional pela vida, que se celebra a 7 de Fevereiro de 2016. «A misericórdia faz florescer a vida» é o título do documento, assinado pelo Conselho permanente da Cei. 
Contagiar com misericórdia, lê-se na mensagem, «significa ajudar a nossa sociedade a sarar de todos os atentados à vida. A lista é impressionante: “É atentado à vida – escrevem os bispos, citando o discurso do Pontífice aos participantes no encontro promovido pela Associação Ciência e Vida a 30 de Maio de 2015 – a chaga do aborto. É atentado à vida deixar morrer os nossos irmãos nas embarcações no canal da Sicília. É atentado à vida a morte no trabalho porque não se respeitam as mínimas condições de segurança. É atentado à vida a morte por subalimentação. É atentado à vida o terrorismo, a guerra, a violência; mas também a eutanásia. Amar a vida é sempre cuidar do outro, querer o seu bem, cultivar e respeitar a sua dignidade transcendente”». A misericórdia, recordam os prelados, «fará florescer a vida: a dos migrantes rejeitados nos barcos ou nos confins da Europa, a vida de crianças obrigadas a ser soldados, a vida das pessoas idosas excluídas do aconchego do lar e abandonadas em asilos, a vida de quem é explorado por patrões sem escrúpulos, a vida de quantos não vêem reconhecido o seu direito a nascer», porque, como disse Francisco em Santa Marta a 16 de Março passado, «somos nós o sonho de Deus que, como um verdadeiro apaixonado, quer mudar a nossa vida».
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