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segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Carta de amor


· ​Missa em Santa Marta ·



O amor cristão é sempre «concreto», com «obras de misericórdia», porque tem como único critério a encarnação de Cristo; por esta razão não se deve cair no «processo» sedutor de «intelectualizar e ideologizar» que «descarna o amor», chegando assim ao «triste espetáculo de um Deus sem Cristo, de um Cristo sem Igreja e de uma Igreja sem povo». Na missa celebrada a 11 de novembro em Santa Marta, o Papa admoestou precisamente contra o risco de crer «num amor de romance ou de telenovela, mundano, filosófico, abstrato e soft».

A reflexão do Pontífice partiu do trecho da segunda leitura de São João (1, 3-9) proposto pela liturgia: «Parece – observou – uma carta de um apaixonado: é o diálogo de amor entre o pastor e a sua esposa, a Igreja». Um diálogo «tão delicado, tão respeitador», a ponto que o apóstolo chama a Igreja «senhora eleita por Deus».



Com este «título cheio de amor o pastor dirige-se à Igreja». E sempre «com tanta delicadeza recorda que “caminhar no amor” é o mandamento que recebemos do Senhor».

De facto, na carta de João lê-se: «E agora, senhora, rogo-te, não como escrevendo-te um novo mandamento, mas aquele mesmo que desde o princípio tivemos: que nos amemos uns aos outros». É um convite a caminhar «no amor». Mas é deveras com «tanta mansidão e tanto respeito» que «o pastor se dirige à sua Igreja, à sua esposa».

«De que amor se trata?» é a questão apresentada por Francisco. «Porque esta palavra – explicou – hoje é usada, mas foi sempre usada, para tantas coisas: tudo é amor». Eis por que é necessário compreender bem «de qual amor» se trata. É «o amor, por exemplo, de um romance ou de uma telenovela, porque também isto se diz que é amor?». Ou então é «o amor teórico, dos filósofos?».

Na sua carta, João cita as palavras do pastor à sua esposa para lhe sugerir que esteja atenta. «Surgiram no mundo muitos sedutores» que, disse o Papa, «propõem outro amor ou outra explicação do amor» e «também outra explicação do amor cristão, porque para eles é assim».

«O critério do amor cristão – afirmou o Pontífice – é a encarnação do verbo». A este propósito João é explícito: «Porque já muitos enganadores entraram no mundo, os quais não confessam que Jesus Cristo veio em carne». E prossegue: «Este tal é o enganador e o anticristo!». De resto, explicou o Papa, «um amor que não reconhece que Jesus veio em carne, em carne, não é o amor que Deus nos comanda: é um amor mundano, é um amor filosófico, é um amor abstrato, é um amor falido, é um amor soft».

Ao contrário, «o critério do amor cristão é a encarnação do Verbo» relançou Francisco. E «quem diz que o amor cristão é outra coisa, este é o anticristo, que não reconhece que o Verbo veio em carne». É precisamente «esta a nossa verdade: Deus enviou o seu Filho, encarnou-se e levou uma vida como a nossa». Eis por que se deve «amar como Jesus amou; amar como Jesus nos ensinou; amar seguindo o exemplo de Jesus; amar, caminhando pela vereda de Jesus». E «a vereda de Jesus é dar a vida».

No trecho evangélico de Lucas (17, 26-37), recordou o Papa, «Jesus admoesta-nos: «A pessoa que procura os seus próprios interesses nunca terá a vida verdadeira; mas quem esquece a si mesmo terá a vida verdadeira». Com efeito, «ele perdeu a vida por amor, para a reencontrar na sua ressurreição». Por conseguinte, «a única maneira de amar como Jesus amou é sair continuamente do próprio egoísmo e pôr-se ao serviço dos outros». Também o apóstolo Tiago repete isto com força na sua carta, «porque o amor cristão é um amor concreto, porque é concreta a presença de Deus em Jesus Cristo, que veio em carne: a encarnação do verbo».

Voltando à carta de João, o Pontífice repetiu também as palavras com as quais o pastor «admoesta bem» a “senhora”: «Prestai atenção a vós próprios para não arruinar aquilo que construímos e para receber uma recompensa plena». Trata-se de um convite a prestar atenção, com mais um trecho: «Todo aquele que prevarica e não persevera na doutrina de Cristo não tem a Deus; quem persevera na doutrina de Cristo, esse tem tanto o Pai como o Filho». Por conseguinte, explicou o Papa, «o Verbo veio em carne, mas vós estais também dentro de uma encarnação, entre aspas, na comunidade, na Igreja, porque quem prevarica esta doutrina da carne, quem prevarica e não permanece na doutrina de Cristo, não possui Deus». E «este prevaricar é um mistério: é sair do mistério da encarnação do Verbo, do mistério da Igreja, porque a Igreja é a comunidade em volta da presença de Cristo, o qual preserva».

Francisco fez referência à palavra grega «proagon», que é «muito forte», para indicar «quem prevarica». E «dali – prosseguiu – surgem todas as ideologias sobre o amor, as ideologias sobre a Igreja, as ideologias que privam a Igreja da carne de Cristo». Mas precisamente «estas ideologias descarnam a Igreja». Levam a dizer: «sim, eu sou católico; sim, sou cristão; eu amo todo o mundo com um amor universal». Mas «é tão etéreo». Ao contrário «um amor está sempre dentro, é concreto, e não além desta doutrina da encarnação do Verbo».

«O caminho da Igreja, a pertença à Igreja – afirmou o Pontífice – é sempre dentro, se prevaricar, sai da Igreja». E assim «quem quiser amar não como Cristo ama a sua esposa, a Igreja, com a própria carne e dando a vida, ama ideologicamente: não ama com todo o corpo e com toda a alma». E «este modo de proceder das teorias, das ideologias, até das propostas de religiosidade tiram a carne de Cristo, tiram a carne da Igreja, prevaricam e arruínam a comunidade, arruínam a Igreja». Nunca se deve «prevaricar o seio da mãe, da santa mãe Igreja hierárquica».

A carta de João revela o seu amor pela Igreja, em particular precisamente quando faz presente que «se começarmos a teorizar sobre o amor, sobre o caminhar no amor fora da Igreja, fora da encarnação do Verbo – explicou o Papa – chegaremos a uma realidade tão frequente na história da Igreja, também nos nossos dias: chegaremos à transformação daquilo que Deus quer, que quis com a encarnação do Verbo; chegaríamos a um Deus sem Cristo, a um Cristo sem Igreja e a uma Igreja sem povo». E «tudo neste processo de descarnar a Igreja».

Antes de retomar a celebração, Francisco pediu para rezar «ao Senhor para que o nosso caminhar no amor nunca – nunca! – nos transforme num amor abstrato». E para que o amor seja «concreto, com as obras de misericórdia», para tocar «a carne de Cristo ali, de Cristo encarnado». Foi «por isso que o diácono Lourenço disse que os pobres são o tesouro da Igreja, porque são a carne sofredora de Cristo».

Ao Senhor, concluiu o Papa, «pedimos esta graça de não prevaricar e de não entrar neste processo, que talvez seduza tanta gente, de intelectualizar, de ideologizar este amor, descarnando a Igreja, descarnando o amor cristão». E «de não chegar ao triste espetáculo de um Deus sem Cristo, de um Cristo sem Igreja e de uma Igreja sem povo».

De braços abertos


· Na última audiência jubilar o Papa falou da inclusão ·

Última audiência jubilar no ano santo extraordinário: aos numerosos fiéis reunidos na praça de São Pedro para o encontro de sábado, 12 de novembro, o Papa falou da ligação entre misericórdia e inclusão. «Com efeito, Deus – explicou – não quer excluir ninguém, antes incluir todos». Por esta razão também «nós cristãos somos convidados a usar o mesmo critério»: o da misericórdia, que «é a forma melhor de agir, um estilo, com o qual procuramos incluir na nossa vida os outros, evitando de nos fecharmos nas nossas seguranças egoístas».




Eis porque, esclareceu o Pontífice, «a inclusão se manifesta no abrir os braços para acolher sem classificar os outros a partir da sua condição social, língua, raça, cultura, religião». Como fazer? Francisco disse claramente: pensando que «diante de nós está uma pessoa que deve ser amada como Deus a ama. Aqueles que encontro no meu trabalho, no meu bairro». Sem hesitar: «Mas este é daquele país, de outro país, desta religião, de outra religião»; a única coisa importante é que temos na nossa frente «uma pessoa que ama a Deus e que eu tenho que amar». Daqui o convite a não esquecer as numerosas «pessoas cansadas e oprimidas» que «encontramos pelo caminho, nas administrações públicas, nos consultórios médicos». Na realidade «o olhar de Jesus recai sobre cada um daqueles rostos, também através dos nossos olhos». E o próprio Evangelho «exorta-nos a reconhecer na história da humanidade o desígnio de uma grande obra de inclusão, que, respeitando plenamente a liberdade de cada pessoa, comunidade, povo, exorta todos a formar uma família de irmãos e irmãs e a fazer parte da Igreja». E dado que, prosseguiu no seu raciocínio, os braços de Jesus «abertos na cruz mostram que ninguém está excluído do seu amor, nem os maiores pecadores», a expressão mais imediata com a qual podemos sentir-nos «acolhidos e inseridos n'Ele é o perdão. Todos – observou – temos necessidade de ser perdoados. E todos precisamos encontrar irmãos e irmãs que nos ajudem a ir ter com Jesus. Não coloquemos obstáculos uns aos outros! Não excluamos ninguém! Aliás – exortou – com humildade e simplicidade tornemo-nos instrumento da misericórdia inclusiva do Pai».

Catequese do Papa

domingo, 13 de novembro de 2016

Liturgia de domingo

Trigésimo Terceiro Domingo do Tempo Comum (semana I do saltério)


Trigésimo Terceiro Domingo do Tempo Comum



A liturgia deste Domingo reflecte sobre o sentido da história da salvação e diz-nos que a meta final para onde Deus nos conduz é o novo céu e a nova terra da felicidade plena, da vida definitiva. Este quadro (que deve ser o horizonte que os nossos olhos contemplam em cada dia da nossa caminhada neste mundo) faz nascer em nós a esperança; e da esperança brota a coragem para enfrentar a adversidade e para lutar pelo advento do Reino.
Na primeira leitura, um “mensageiro de Deus” anuncia a uma comunidade desanimada, céptica e apática que Jahwéh não abandonou o seu Povo. O Deus libertador vai intervir no mundo, vai derrotar o que oprime e rouba a vida e vai fazer com que nasça esse “sol da justiça” que traz a salvação.
O Evangelho oferece-nos uma reflexão sobre o percurso que a Igreja é chamada a percorrer, até à segunda vinda de Jesus. A missão dos discípulos em caminhada na história, é comprometer-se na transformação do mundo, de forma a que a velha realidade desapareça e nasça o Reino. Esse “caminho” será percorrido no meio de dificuldades e perseguições; mas os discípulos terão sempre a ajuda e a força de Deus.
A segunda leitura reforça a ideia de que, enquanto esperamos a vida definitiva, não temos o direito de nos instalarmos na preguiça e no comodismo, alheando-nos das grandes questões do mundo e evitando dar o nosso contributo na construção do Reino.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

O Sonho de Agostinho




· Aos agostinianos recoletos o Papa pediu que sejam homens de esperança ·
20 de Outubro de 2016


Ser «homens de esperança» e «criadores de comunhão» para viver como irmãos com «uma só alma e um só coração»: foi este «o sonho de santo Agostinho», disse o Papa Francisco aos participantes no quinquagésimo capítulo geral dos Agostinianos Recoletos, recebidos em audiência na manhã de quinta-feira, 20 de outubro, na Sala Clementina.
Ao exortar os religiosos a fazer «grata memória» do passado, o Pontífice recordou que precisamente desta «ação de graças» nasce o impulso «a viver o presente com paixão de modo cada vez mais corajoso». Em particular Francisco convidou a «criar, com a nossa presença no meio do mundo, uma sociedade capaz de reconhecer a dignidade de cada pessoa e de partilhar o dom que cada um é para o outro».
«Muitas pessoas – garantiu – esperam que vamos ter com elas e que olhemos para elas com a ternura que sentimos e recebemos da nossa relação com Deus. Este é o poder que temos, não o dos nossos ideais e projetos pessoais; mas a força da sua misericórdia que transforma e dá vida». Eis então a necessidade de viver no mundo comprometendo-se «a fim de que não haja divisões nem conflitos ou exclusão, mas reine a concórdia e se promova o diálogo».
Discurso do Papa

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Alimentos e água direitos universais




· Na audiência geral o Papa recordou que as exigências dos pobres interpelam todos ·
19 de Outubro de 2016

A maturação duma «consciência solidária» para reafirmar que a alimentação e o acesso à água são «direitos universais de todos os seres humanos, sem distinções nem discriminações» foi o desejo expresso pelo Papa Francisco na audiência geral de quarta-feira, 19 de outubro, na praça de São Pedro. Retomando as palavras contidas na Caritas in veritate de Bento XVI, o Pontífice explicou que «o direito à alimentação e à água revestem um papel importante para a consecução de outros direitos» e definiu « um imperativo ético para toda a Igreja» a primeira obra de misericórdia corporal: «dar de comer a quem tem fome».
Nestas últimas semanas do jubileu extraordinário o Papa Francisco está a dedicar as próprias reflexões precisamente às obras de misericórdia e meditando sobre as duas primeiras exortou a considerar que demasiadas vezes os meios de comunicação informam sobre «populações que sofrem a falta de alimentos e de água, com graves consequências sobretudo para as crianças». Mas, observou, o chamado «bem-estar» faz com que «as pessoas tendam a fechar-se em si mesmas, tornando-se insensíveis às exigências dos outros». Contudo, advertiu, «a realidade deve ser recebida e enfrentada pelo que é, e com frequência nos deparamos com situações de necessidade urgente».
Certamente o Papa afirmou que está ciente de que «face a determinadas notícias e sobretudo a certas imagens, a opinião pública comove-se e têm início campanhas de ajuda» com «doações generosas»; mas «esta forma de caridade» embora seja importante – observou – talvez «não nos envolva diretamente. Entretanto quando, indo pelas ruas, nos cruzamos com uma pessoa em necessidade, ou um pobre bate à porta da nossa casa, é muito diferente» porque «somos envolvidos em primeira pessoa», esclareceu o Pontífice. Eis então a exortação ao compromisso pessoal porque – concluiu – há sempre alguém que sente fome e sede e precisa de mim. Não posso delegar outra pessoa».
Exortação repetida depois durante as saudações aos diversos grupos presentes na audiência. Foi significativa, nas palavras dirigidas aos polacos, a referência ao beato mártir Jerzy Popiełuszko, o sacerdote assassinado a 19 de outubro de 1984, do qual se celebrava a festa litúrgica: ele, recordou Francisco, pagou pessoalmente o seu compromisso «a favor dos trabalhadores e das suas famílias, pedindo justiça e condições dignas de vida».

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Um lugar ao sol

O BOM SONO E O TRABALHO

Em nossas orações noturnas devemos pedir a Deus para que zele pelos nossos sonhos. Mas, para isso é necessário que também demos nossa contribuição. O Criador não é um mágico pronto a satisfazer nossas vontades, enquanto passivamente olhamos suas realizações. Pelo contrário, Deus nos quer como filhos cúmplices e divulgador de sua obra.
Para se ter um bom sonho precisamos construir o nosso dia cercado de coisas boas. Termos tempo, mesmo diante da labuta do trabalho intenso para agradecermos por nossos empregos, que por mais aparentemente nos surjam como fardos exaustivos ou massantes é por meio deles que conseguimos, mesmo que de forma insuficiente, como para a maioria, o nosso sustento.
O mau emprego, o mau empregador, nos servem de advertência para que não caiamos em tentação e passamos a agir pela melhoria de nossa educação e desempenho profissional, para que mesmo em um mercado de trabalho em crise, conseguirmos talvez mais adiante o nosso sonhado lugar ao sol.
Não fazer dos baixos salários um motivo para o nosso imobilismo é fundamental. A insatisfação com o trabalho contribui para uma má noite de sonho e até mesmo pesadelos.


domingo, 16 de outubro de 2016

Mestres

O professor ensina, mas tem gente que prefere não aprender.
Educação, caminho para um mundo melhor
(Mauricio Figueiredo)
Ilustração: Jesus e os apóstolos, de Candido Portinari


sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Unidos na misericórdia


·

​O Pontífice a uma peregrinação de luteranos alemães ·
13 de Outubro de 2016

«O testemunho que o mundo espera de nós consiste sobretudo em tornar visível a misericórdia que Deus tem em relação a nós através do serviço aos pobres, aos doentes, a quantos abandonaram a própria terra», disse Francisco aos participantes na peregrinação «Com Lutero em visita ao papa», provenientes do Land alemão da Saxónia-Anhalt, recebidos na Sala Paulo VI na manhã de quinta-feira, 13 de outubro.

O Pontífice afirmou sentir-se feliz pelo facto de que «hoje, luteranos e católicos estão a caminhar pela senda que vai do conflito para a comunhão. Já percorremos – disse – um importante trecho da estrada. Ao longo do caminho experimentamos sentimentos contrastantes: dor pela divisão que ainda existe, mas também alegria pela fraternidade já reencontrada. A vossa presença tão numerosa e entusiasta é um sinal evidente desta fraternidade». A propósito o Papa falou sobre a viagem que realizará no final do mês a Lund, na Suécia, para comemorar juntamente com a Federação luterana mundial os cinco séculos do início da reforma. No final da audiência o Pontífice respondeu, improvisando, a cinco perguntas que lhe formularam sobre temas ecuménicos de atualidade.

Discurso do Papa

terça-feira, 4 de outubro de 2016

ORAÇÃO DE SÃO FRANCISCO


Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz.
Onde houver ódio, que eu leve o amor;
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão;
Onde houver discórdia, que eu leve a união;
Onde houver dúvida, que eu leve a fé;
Onde houver erro, que eu leve a verdade;
Onde houver desespero, que eu leve a esperança;
Onde houver tristeza, que eu leve alegria;
Onde houver trevas, que eu leve a luz.
Ó mestre, fazei que eu procure mais consolar que ser consolado;
compreender, que ser compreendido;
amar, que ser amado.
Pois é dando que se recebe,
é perdoando que se é perdoado,
e é morrendo que se vive
para a Vida Eterna.


sábado, 1 de outubro de 2016

Antes de tudo o Evangelho




Uma frase de Francisco a Elias II encerra o motivo condutor da viagem papal à Geórgia e, em última análise, a inspiração do pontificado e da própria exigência cristã: antes de tudo o Evangelho. Com efeito, durante o encontro familiar e emocionante no patriarcado ortodoxo, o Papa recordou o exemplo das santas e dos santos desse país caucásico como encorajamento a «evangelizar como no passado, mais do que no passado, livres das amarras dos preconceitos e abertos à perene novidade de Deus». Sem se deixar desanimar pelas dificuldades e pelos «verdadeiros inimigos», que não são visíveis porque «são os espíritos do mal fora e dentro de nós», recordou o Pontífice.
Efetivamente, o testemunho e a pregação do Evangelho estão no centro também deste novo itinerário numa região que, falando às autoridades do país e ao corpo diplomático, o Papa definiu «ponte natural entre a Europa e a Ásia», que se deve tornar cada vez mais um modelo de coexistência. Sobretudo num contexto e num período em que «extremismos violentos» instrumentalizam princípios civis e a própria religião para «desígnios de domínio e de morte», como acontece em demasiadas regiões do mundo.
E foi por uma delas, não distante destes lugares, que se elevou a prece de Francisco durante a visita à comunidade assírio-caldeia, minoria oprimida na qual ainda se conserva o uso litúrgico do aramaico, a língua falada por Jesus. Na tarde de sexta-feira, dia que na tradição cristã se dedica à recordação da paixão do Senhor, o Papa rezou pelas vítimas da injustiça e da opressão, inocentes perseguidos, abusados, obrigados a deixar as suas terras: «Senhor Jesus, estendei a sombra da vossa cruz sobre os povos em guerra», fazei «saborear a alegria da vossa ressurreição aos povos exaustos pelas bombas» e «levantai da devastação o Iraque e a Síria».
Como peregrino e amigo, no contexto de «um mundo sedento de misericórdia, de unidade e de paz», durante o encontro com o patriarca ortodoxo Francisco exortou a deixar-se «olhar novamente por Jesus» para o anunciar unidos. Assim, mais uma vez e não obstante todos os fechamentos, o Papa reiterou a determinação da Igreja católica a progredir no caminho do ecumenismo, enquanto as perseguições dos cristãos não fazem distinções confessionais — e é este o ecumenismo do sangue de tantos novos mártires — e na ajuda respeitadora de toda a vontade de comunhão. Como nas palavras de Elias II que, invocando a bênção de Deus sobre a Igreja de Roma, realçou o compromisso de rezar uns pelos outros.
E a presença de fiéis ortodoxos georgianos, ao lado de representantes de várias confissões cristãs e de alguns muçulmanos, foi elogiada pelo Papa no final da missa no estádio de Tbilisi. Aqui, no dia da memória litúrgica de Teresa do Menino Jesus, o Pontífice voltou a exaltar «o grande valor das mulheres» que, como dizia a jovem santa e doutora da Igreja, «amam a Deus em número muito maior do que os homens». Para este novo elogio Francisco inspirou-se num país onde muitas avós e mães «continuam a preservar e a transmitir a fé» semeada por uma mulher, santa Nino, e ajuda a compreender que o próprio Deus nos consola como uma mãe e também nisto nos impele a segui-lo.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Três graças


· ​Missa em Santa Marta ·

«Reconhecer a desolação espiritual, rezar quando nos sentimos dominados por este estado de desolação espiritual e saber acompanhar as pessoas que sofrem momentos difíceis de tristeza e de desolação espiritual». São as três graças a pedir ao Senhor que o Papa Francisco indicou, comentando as leituras na manhã de terça-feira, 27 de setembro, durante a missa em Santa Marta.



Oferecendo a celebração do dia, festa litúrgica de são Vicente de Paulo, pelas religiosas da comunidade da Casa – que «foram fundadas» pelo santo francês e cuja «vida segue o caminho que ele indicou: fazer caridade» – o Papa centrou a própria reflexão sobretudo na primeira leitura, tirada do livro de Job (3, 1-3,11-17.20-23). Esse homem «sofria» porque «tinha perdido tudo. Todos os seus bens, inclusive os seus filhos. E depois adoeceu de uma doença semelhante à lepra: grave, cheio de chagas». Deste modo, o seu sofrimento era tal que «a um certo ponto, abriu a boca e amaldiçoou o seu dia, o que lhe acontecia», dizendo: «Pereça o dia em que nasci e a noite em que foi dito: foi concebido um varão. Seria melhor que tudo isto não tivesse acontecido. Melhor a morte do que viver assim».

Contudo, observou o Pontífice, «a Bíblia diz que Job era justo e santo». E geralmente um santo não «pode agir assim». Com efeito, esclareceu o Papa, Job «não amaldiçoou Deus. Apenas desabafou, isto era um desabafo: um desafogo de filho diante do Pai». Quase como fez o profeta Jeremias, que de acordo com o capítulo vinte do seu livro no Antigo Testamento: «Começa com algo muito bom – observou Francisco – e diz ao Senhor: “Fui seduzido por Ti, Senhor”»; mas logo depois, como Job, também Jeremias diz: «Maldito o dia em que fui concebido». E no entanto «estes dois casos não são blasfémias: são desabafos». Ambos «se desafogam diante de Deus» porque «os dois sentiam uma grande desolação espiritual».

A este propósito o Pontífice frisou que a desolação espiritual «acontece a todos: tanto ao forte como ao débil... Mas, este estado obscuro da alma, sem esperança, desconfiado, sem vontade de viver nem de ver o fim do túnel, com muita agitação no coração e nas ideias», é vivido por todos os homens e mulheres. «A desolação espiritual – explicou – faz-nos sentir como se tivéssemos a alma esmagada», que «não quer viver: “é melhor a morte!” foi o desabafo de Job; melhor morrer do que viver assim».

Mas, disse o Papa, «quando o nosso espírito está neste estado de tristeza ampliada, que quase não temos fôlego, devemos compreender» que isto «acontece a todos»: de modo mais ou menos acentuado, mas acontece a todos. Eis então o convite a «compreender o que acontece no nosso coração», a questionar-nos sobre «o que deveríamos fazer quando vivemos estes momentos obscuros, devido a uma tragédia familiar, uma doença, ou outra situação que nos desanima». Certamente, esclareceu, não é o caso de «tomar um remédio para dormir e afastar-nos dos factos, ou beber dois, três, quatro copos» para esquecer, pois «isto não resolve». Ao contrário, «a liturgia de hoje faz-nos ver como nos devemos comportar «com esta desolação espiritual, quando estamos desanimados, sem esperança».

Uma ajuda vem do salmo responsorial: «Chegue a ti a minha oração, Senhor». Portanto, a primeira atitude é rezar. «Oração forte, forte, forte» repetiu Francisco, evidenciando que o «salmo 87 que acabámos de recitar juntos» ensina «como rezar no momento da desolação espiritual, da escuridão interior, quando nada vai corre e a tristeza se apodera do coração. “Senhor, Deus da minha salvação, diante de Ti clamo dia e noite”: as palavras são fortes! Foi o que fez Job: “Clamo, dia e noite. Por favor, ouve a minha súplica”». Portanto, «é uma oração» que consiste em «bater à porta, mas com força: “Senhor, estou cansado de desventuras. A minha vida está à beira do inferno. Sinto-me como aqueles que descem na fossa, sinto-me como um homem já sem forças”».

Na vida, observou o Papa «quantas vezes nos sentimos assim, sem forças». Contudo «o próprio Senhor nos ensina como rezar nestes momentos difíceis: “Senhor, lançaste-me na fossa mais profunda. Pesa sobre mim o teu furor. Chegue a ti a minha oração”. Esta é a oração: devemos rezar deste modo nos momentos difíceis, obscuros, de desolação, esmagadores, que nos sufocam», exortou Francisco. Porque «isto é rezar com autenticidade» e, de qualquer maneira, serve «inclusive para desabafar como desabafou Job com os filhos. Como um filho».

Depois de ter indicado o comportamento individual que devemos ter nos momentos de desolação espiritual, o Pontífice refletiu sobre o acompanhamento de quantos se encontram em tais situações. De facto, o trecho bíblico continua com a narração dos amigos que foram ter com Job e «permaneceram em silêncio, muito tempo». Com efeito, explicou o Papa, «diante de uma pessoa que está nesta situação, as palavras podem ferir. Basta tocá-lo, estar próximo», de modo «que sinta a proximidade, e responder ao que ele pergunta, sem fazer discursos».

Mas no caso de Job «vê-se que os amigos depois de um certo tempo se aborreceram com o silêncio» e começaram «a fazer discursos, a dizer disparates». Mas «quando uma pessoa sofre, está na desolação espiritual, devemos falar o menos possível e ajudar com o silêncio, a proximidade, as carícias e a oração diante do Pai».

Eis a atualidade das leituras litúrgicas. Com base nelas Francisco expressou os votos de «que o Senhor nos ajude: primeiro, a reconhecer em nós os momentos da desolação espiritual, quando estamos na escuridão, sem esperança, e a perguntarmos o porquê; segundo, a rezar como hoje nos ensina a liturgia com este salmo 87 no momento da escuridão – “Chegue a ti a minha oração, Senhor”». E terceiro, «quando me aproximo de uma pessoa que sofre», por uma doença ou por qualquer outra circunstância, «mas que sente precisamente a desolação: silêncio». Um silêncio, concluiu, «com muito amor, proximidade, carícias. E não façamos discursos que no final não ajudam e até ferem».

sábado, 24 de setembro de 2016

Nossa Senhora das Mercês

Sabado, dia 24 de Setembro de 2016
Nossa Senhora das Mercês





Em 621, os visigodos tornaram-se senhores de toda a Espanha.
Em 711, vieram os árabes que os repeliram para as montanhas das Astúrias e conquistaram quase toda a Península. Foram precisos seis séculos para os expulsar.
Durante este período foram levados para África grande número de cristãos. Os que abraçavam o islamismo eram tratados como homens livres; os outros eram vendidos como escravos. Para os libertar era necessário pagar o resgate. Como nem todas as famílias tinham posses para libertar seus familiares, S. Pedro Nolasco fundou, em 1218, a Ordem das Mercês ou da Redenção dos Cativos. A própria Virgem, numa aparição, incitou a isso. Pedro contou a sua visão a S. Raimundo de Penhaforte e ao rei Jaime I, de Aragão. Os três conseguiram pôr em prática o projecto. Graças ao seu heroísmo e à generosidade dos cristãos, a obra foi fecunda em resultados e só terminou com o desaparecimento da pirataria.
Dizia o Breviário Romano que "foi com o fim de agradecer a Deus e à Santíssima Virgem os benefício de tal Instituição que se estabeleceu a festa de Nossa Senhora das Mercês".
O nome feminino, Mercedes, vem deste título especial da Virgem Maria.


sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Osteoporose da alma


· Missa em Santa Marta ·
22 de Setembro de 2016
É a vaidade, juntamente com a avidez e a altivez, uma das «raízes de todos os males» no coração de cada pessoa. A corrida frenética, tão característica dos nossos tempos, «para fingir, para parecer, para aparecer» não leva a nada, «não nos dá um lucro verdadeiro» e deixa a inquietação na alma.
A vanitas vanitatum do Qoèlet (1, 2-11), proposta pela liturgia do dia, esteve no centro da meditação do Papa Francisco durante a missa celebrada em Santa Marta, na manhã de quinta-feira 22 de setembro. Contudo, ponto de partida foi a inquietação do rei Herodes Antipas descrita no Evangelho de Lucas (9, 7-9). De facto, o soberano «estava inquieto» porque aquele Jesus sobre o qual todos falavam «era para ele uma ameaça». Alguns pensavam que fosse João, mas o rei repetia: «Eu degolei João. Quem é, pois, este, de quem ouço tais coisas?». Uma inquietação, observou o Pontífice, que recorda a do pai, Herodes o grande, o qual, quando chegaram os reis magos para adorar Jesus, «ficou atemorizado».
A nossa alma, explicou o Papa, «pode ter duas inquietações: a boa, que é a inquietação do Espírito Santo, que nos dá Espírito Santo, e faz com que a alma esteja inquieta para fazer coisas boas, para ir em frente: e há também a má inquietação, a que nasce de uma consciência suja». Precisamente esta última caracterizava os dois soberanos contemporâneos de Jesus: «tinham a consciência suja e por esta razão estavam inquietos, porque tinham feito coisas más e não encontravam paz, e qualquer acontecimento lhes parecia uma ameaça». Aliás, o seu modo de resolver os problemas era assassinar, e iam em frente passando «por cima dos cadáveres das pessoas».
Quem como eles, explicou Francisco, «comete o mal», tem «a consciência suja e não pode viver em paz»: a inquietação tormenta-os e vivem «com uma comichão constante, com uma urticária que não os deixa em paz». Uma realidade interior sobre a qual se concentrou a reflexão do Papa: «esta gente cometeu o mal, mas o mal tem sempre a mesma raiz, qualquer mal: a avidez, a vaidade e a altivez». Todas elas, acrescentou, «não te deixam a consciência em paz», todas impedem que entre «a inquietação sadia do Espírito Santo», e «levam a viver assim: inquietos, com medo».
A este ponto, solicitado pela primeira leitura, o Pontífice deteve-se sobre a vaidade: «Vaidade das vaidades, vaidade das vaidades... Tudo é vaidade». A expressão do Qoèlet, observou, pode parecer «um pouco pessimista», embora na realidade «nem tudo seja assim: há gente boa». Mas, explicou Francisco, «o texto quer sublinhar esta tentação muito nossa, que é inclusive a primeira dos nossos pais: ser como Deus». Com efeito, a vaidade, «incha-nos», mas «não tem longa vida, porque é como uma bolha de sabão» e nunca dá «um verdadeiro lucro». Não obstante tudo, o homem «esforça-se por parecer, por fingir, por aparecer». Por outras palavras: «A vaidade é camuflar a própria vida. E isto adoece a alma, porque há quem camufla a própria vida para parecer, para aparecer, e todas as coisa que faz são para fingir, por vaidade, mas no fim de contas o que ganha?».
Para fazer melhor compreender esta realidade interior, o Papa usou algumas imagens concretas: «a vaidade é uma “osteoporose” da alma: os ossos de fora parecem bons, mas dentro estão todos deteriorados». E ainda: «A vaidade leva-nos à fraude; como os impostores marcam o baralho para lucrar. Mas esta vitória é fingida, não é verdadeira. Esta é a vaidade: viver para fingir, viver para parecer, viver para aparecer. E isto inquieta a alma».
A este respeito, recordou o Papa, são Bernardo exprimia-se dirigindo-se ao vaidoso com uma palavra «até muito forte»: «Mas pensa naquilo que serás. Serás comida para vermes». Ou seja: «todo este esforço para camuflar a vida é uma mentira, porque te comerão os vermes e não serás nada». Mas «onde está a força da vaidade?», questionou-se Francisco. «Impelidos pela altivez a cometer maldades» não se quer «permitir que se veja um erro», procura-se «cobrir tudo». É verdade que há muita «gente santa»; mas é igualmente verdade que há pessoas das quais pensamos: «Que boa pessoa! Vai à missa todos os domingos. Faz grandes ofertas à Igreja», sem se dar conta da «osteoporose», da «corrupção que tem dentro». Aliás, «a vaidade é esta: faz-te parecer com uma cara de santinho e depois a tua verdade dentro é muito diferente».
Perante tudo isto, concluiu o Papa, «onde está a nossa força e a segurança, o nosso refúgio?». Também a resposta chega da liturgia. De facto, no salmo do dia lê-se: «Senhor tu foste para nós um refúgio de geração em geração». E no canto ao Evangelho recordam-se as palavras de Jesus: «Eu sou o caminho, a verdade e a vida». Esta, disse Francisco, «é a verdade, não a maquilhagem da vaidade».
Portanto, é importante rezar para «que o Senhor nos liberte destas três raízes de todos os males: a avidez, a vaidade e a altivez. Mas sobretudo da vaidade, que nos faz muito mal».
Missa em Santa Marta

sábado, 17 de setembro de 2016

A lógica do depois de amanhã


· ​Missa em Santa Marta ·
16 de Setembro de 2016
O cristão deve ter a coragem de viver com «a lógica do depois de amanhã», ou seja, com a certeza da «ressurreição da carne» que é também «a raiz mais profunda das obras de misericórdia». E das tentações de se deixar condicionar por uma «piedade espiritualista» ou de ficar só pela «lógica do passado e do presente» o Papa advertiu na missa celebrada na sexta-feira 16 de setembro, na capela da Casa Santa Marta, relançando a verdade da «lógica da redenção, até ao fim».
Refletindo sobre o trecho evangélico de Lucas (8, 1-3) proposto pela liturgia, o Papa afirmou: «quando ouço este trecho do Evangelho sorrio um pouco porque alguns apóstolos implicavam com Madalena: Lucas, também Marcos, recordam sempre o passado» a ponto de escrever que dela «tinham saído sete demónios». Mas «pobre mulher, foi a apóstola da ressurreição, é apóstola, mas eles não esquecem». Por conseguinte, o Papa repropôs os conteúdos do trecho da primeira carta aos Coríntios (15, 12-20). Entrando «neste jogo – é a palavra que me vem – jogo: que Paulo faz» entre a ressurreição de Cristo e «a nossa ressurreição – “Se Cristo não ressuscitou, também nós não ressuscitaremos” – e de uma parte para outra, mas parece um pouco confuso». Na realidade, a finalidade do apóstolo dos Gentios «é clara: deseja fazer com que entremos na lógica da redenção até ao fim». Por exemplo, «quando recitamos o Credo é bonito: dizemos: “Deus, Pai Omnipotente, o Filho, o Espírito Santo...”». E «até àquele ponto dizemo-lo bem». Ao contrário, o fim do Credo começa a ir depressa: “a Igreja católica, a ressurreição dos mortos” ou nalgumas traduções, como a espanhola, «a ressurreição da carne”». Mas esta parte do Credo, insistiu Francisco, «dizemo-la depressa: sim, é melhor dizê-la depressa porque não sabemos como será isto, a carne assusta-nos». E eis que, na carta aos Coríntios, «Paulo entra em todo este jogo da ressurreição: se Jesus fez assim, por que nós...; e se não fizermos assim, nem sequer Jesus o fez».
Segundo Francisco a explicação é simples: «Todos nós temos facilidade de entrar na lógica do passado, porque é concreta: vimos». E «é fácil também entrar na lógica do presente: porque o vemos». Mas «devemos dizer também que muitos psiquiatras trabalharam para fazer compreender a algumas pessoas esta lógica do passado e do presente: é fácil, é concreta». Sim, prosseguiu Francisco, «não é muito difícil, mas nisto atraiçoa-nos um pouco o neo-saduceísmo: pensar na lógica do futuro, “não, mas sim no céu, há tanta gente no céu: como será? Mas é melhor não pensar nisso”». Trata-se de uma maneira de pensar um pouco como os «saduceus»: «Sim, o Senhor ama-nos e far-nos-á viver, mas não pensemos como, porque isto é difícil». Sem dúvida «não é fácil entrar na totalidade desta lógica do futuro».
Com efeito, «a lógica de ontem é fácil, a lógica de hoje é fácil» e também «a lógica de amanhã é fácil: todos morreremos» afirmou o Papa. O que é «difícil» é a «lógica do depois de amanhã». E precisamente «o que Paulo quer comunicar hoje, a lógica do depois de amanhã: como será?». A questão central é «a ressurreição: Cristo ressuscitou e está claro que não ressuscitou como um fantasma». Por isso, narrando a ressurreição, Lucas cita esta palavra de Jesus: «Tocai-me, dai-me de comer!». Porque «um fantasma não tem carne, nem ossos». Eis então que «a lógica do depois de amanhã é a lógica que inclui a carne: como será o céu? Sim, todos iremos para lá?».
«Mas nós não compreendemos o que Paulo quer dizer, esta lógica do depois de amanhã» explicou ainda o Pontífice. E «também aqui nos atraiçoa um certo gnosticismo: não, serei todo espiritual». O facto, prosseguiu o Papa, é que «nós temos medo da carne: não esqueçamos que esta foi a primeira heresia condenada pelo apóstolo João: “Quem diz que o Verbo de Deus não veio na carne é do Anticristo, é do Maligno”». Sim, afirmou o Papa, «temos medo de aceitar e levar até às últimas consequências a carne de Cristo». É «mais fácil uma piedade espiritualista, uma piedade de tonalidades; mas entrar na lógica da carne de Cristo, isso é difícil». Contudo «esta é a lógica do depois de amanhã: nós ressuscitaremos como Cristo, com a nossa carne».
A este propósito Francisco observou que «se compreende algo nas profecias» que podem servir de ajuda: por exemplo, explicou, «Job, um pouco profeticamente obscuro, no capítulo 19, diz-nos algo: “Sei que o meu Redentor está vivo e eu vê-lo-ei com os meus olhos». E «foi precisamente Jesus quem mostrou que a sua ressurreição é assim». Mas também «já os primeiros cristãos, os de Corinto, também os de Tessalónica», pensam: «Sim, Ele ressuscitou desta forma, mas talvez nós, não sei, sim, veremos o Senhor, mas...». Na realidade é precisamente «aqui, na fé da ressurreição da carne», que «as obras de misericórdia têm a raiz mais profunda, porque há uma ligação contínua: a carne de Cristo, a carne do irmão, as obras de misericórdia, é a carne transformada».
Por isso «Paulo diz aos cristãos de Tessalónica», na primeira carta, capítulo quarto: “Eu não quero que estejais na ignorância em relação aos adormecidos. Todos seremos transformados”. O nosso corpo, prosseguiu Francisco, «a nossa carne será transformada e estaremos sempre no Senhor; assim como o Senhor é, com o corpo e com a alma, transformado: do modo como o Senhor se fez ver e tocar, e do modo como comeu com os discípulos depois da ressurreição, também nós seremos com o mesmo corpo». E «é esta a lógica do depois de amanhã, aquela que temos dificuldade de compreender, na qual temos dificuldade de entrar». Em nossa ajuda vem uma bonita frase de Paulo aos cristãos de Tessalónica: e nós, assim transformados, «estaremos sempre com o Senhor».
«Compreender bem a lógica do passado é um sinal de maturidade; mover-se na lógica do presente é um sinal de maturidade, na de ontem e na de hoje». E «é também um sinal de maturidade ter a prudência para ver a lógica do amanhã, do futuro». Mas «é necessária uma graça grande do Espírito Santo para compreender esta lógica do depois de amanhã, depois da transformação, quando Ele vier e nos levar todos transformados sobre as nuvens para permanecer sempre com Ele». Ao Senhor, concluiu o Papa, «pedimos a graça desta fé».
Missa em Santa Marta

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Exaltação da Santa Cruz







A Igreja universal celebra hoje a festa da Exaltação da Santa Cruz. É uma festa que se liga à dedicação de duas importantes basílicas construídas em Jerusalém por ordem de Constantino, filho de Santa Helena. Uma foi construída sobre o Monte do Gólgota; por isso, se chama Basílica do Martyrium ou Ad Crucem. A outra foi construída no lugar em que Cristo Jesus foi sepultado pelos discípulos e foi ressuscitado pelo poder de Deus; por isto é chamada Basílica Anástasis, ou seja, Basílica da Ressurreição.
A dedicação destas duas basílicas remonta ao ano 335, quando a Santa Cruz foi exaltada ou apresentada aos fiéis. Encontrada por Santa Helena, foi roubada pelos persas e resgatada pelo imperador Heráclio. Segundo contam, o imperador levou a Santa Cruz às costas desde Tiberíades até Jerusalém, onde a entregou ao Patriarca Zacarias, no dia 3 de Maio de 630. A partir daí a Festa da Exaltação da Santa Cruz passou a ser celebrada no Ocidente. Tal festividade lembra aos cristãos o triunfo de Jesus, vencedor da morte e ressuscitado pelo poder de Deus.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Verdadeira liberdade e novas formas de escravidão


· Na audiência jubilar o Papa recordou que a salvação vem de Deus ·
10 de Setembro de 2016

Em nome de uma «falsa liberdade», o homem de hoje deixa-se aprisionar por «novas formas de escravidão», rejeitando o dom da redenção que vem de Deus, disse o Papa Francisco na catequese da audiência jubilar de 10 de setembro, na praça de São Pedro.
Comentando a primeira carta de Pedro (1, 18-21), o Pontífice recordou que na salvação trazida por Cristo há «a mais radical libertação que Deus podia alcançar para nós, para a humanidade inteira e para toda a criação». No entanto, «parece que o homem já não gosta de pensar que é libertado e salvo pela intervenção de Deus; sim, o homem de hoje ilude-se com a sua liberdade, como força para obter tudo».
«Quantas ilusões são vendidas sob o pretexto da liberdade, e quantas novas formas de escravidão são criadas nos nossos dias em nome de uma falsa liberdade», exclamou o Papa, frisando sobretudo os danos provocados pela droga: «Todos nós vimos pessoas assim, que no fim caem». Na realidade, «temos necessidade de Deus para nos libertar de todas as formas de indiferença, egoísmo e autossuficiência». E o Pai «tem uma grande ternura, um amor imenso pelos mais pequeninos e frágeis, pelos descartados da sociedade: quanto mais carências temos, tanto mais o seu olhar sobre nós se enche de misericórdia». Por isso, devemos acolher sempre a sua graça. Sim, Deus «sente uma compaixão piedosa por nós, porque conhece as nossas fraquezas, os nossos pecados. E perdoa-nos sempre».

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

PELA DIGNIDADE DA MULHER - Papa Francisco


· Audiência geral antes do encontro com os cardiologistas ·
31 de Agosto de 2016
Todos nos acautelamos, inclusive as comunidades cristãs, contra visões da feminilidade deturpadas por preconceitos e suspeitas lesivas da sua dignidade intangível», disse o Papa Francisco na audiência geral de quarta-feira 31 de agosto, na praça de São Pedro, comentando o episódio evangélico da mulher curada da perda de sangue.
Para o Pontífice o milagre de Jesus «faz refletir sobre o modo como a mulher é com frequência compreendida e representada». De facto, para a hemorroíssa «a “salvação” assume múltiplas conotações: antes de tudo restitui-lhe a saúde; depois liberta-a das discriminações sociais e religiosas; além disso, realiza a esperança que ela trazia no coração cancelando os seus medos e o seu desalento; por fim, restitui-a à comunidade libertando-a da necessidade de agir no escondimento». Eis então o convite a «pedir perdão pelos nossos pecados e prosseguir, com coragem, como fez aquela mulher».
No final do encontro com os fiéis o Papa foi até à nova Feira de Roma para saudar os participantes no congresso anual organizado pela Sociedade europeia de cardiologia. «Há leis gravadas na própria natureza – recordou no discurso dirigido aos presentes – que ninguém pode manipular mas só descobrir, usar e ordenar». Na realidade, a ciência sozinha não é suficiente «para compreender o mistério que cada pessoa contém em si». Precisamente observando «o homem na sua totalidade», insistiu Francisco, podemos dirigir «um olhar de particular intensidade aos mais pobres, aos mais necessitados e marginalizados».
Catequese do Papa na audiência geral
Audiência geral

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Pedagogia da Misericórdia - Papa Francisco

· �Mensagem do Papa para o jubileu continental americano ·
27 de Agosto de 2016
«Deixar-se “misericordiar”». Com uma expressão típica da sua linguagem, o Papa Francisco convidou toda a Igreja do continente americano a abrir de par em par o coração à misericórdia de Deus, vivendo-a como «um modo concreto de “tocar” a fragilidade, de nos vincularmos aos outros, de nos aproximar-nos uns dos outros». O apelo do Pontífice está contido na mensagem dirigida aos participantes na celebração continental do jubileu extraordinário, inaugurado a 27 de agosto em Bogotá (Colômbia).
Francisco recorda em especial que a misericórdia não é uma «teoria a apresentar» mas, ao contrário, «uma história de pecado a recordar» e «um amor a louvar». Deste modo ela «gera o movimento que vai do coração às mãos, o movimento de quem não tem medo de se aproximar, de tocar, de acariciar; e tudo isto sem se escandalizar nem condenar, sem excluir ninguém».
Na mensagem o Papa denuncia as consequências da «cultura fraturada» em que vivemos hoje. Uma cultura — frisa — que «ao longo do caminho deixa pessoas idosas, crianças e minorias étnicas que são vistas como ameaças». Mas, garante, «é precisamente nesta sociedade, nesta cultura que o Senhor nos envia: envia-nos e impele-nos a levar o bálsamo da “sua” presença; envia-nos com um único programa: ser misericordiosos, permanecendo próximos dos milhares de indefesos que caminham na nossa amada terra americana».
A misericórdia — reitera o Pontífice — «aprende-se porque o Pai continua a perdoar-nos». Assim, tratar com misericórdia quer dizer «aprender do Mestre a estar próximo, sem ter medo daqueles que foram descartados ou que são “manchados” e marcados pelo pecado». E num tweet, em @Pontifex, expressa os bons votos de que «um impetuoso vento de santidade percorra o jubileu extraordinário da misericórdia em todas as Américas».

domingo, 28 de agosto de 2016

Banquete do Reino




A liturgia deste domingo propõe-nos uma reflexão sobre alguns valores que acompanham o desafio do “Reino”: a humildade, a gratuidade, o amor desinteressado.
O Evangelho coloca-nos no ambiente de um banquete em casa de um fariseu. O enquadramento é o pretexto para Jesus falar do “banquete do Reino”. A todos os que quiserem participar desse “banquete”, ele recomenda a humildade; ao mesmo tempo, denuncia a atitude daqueles que conduzem as suas vidas numa lógica de ambição, de luta pelo poder e pelo reconhecimento, de superioridade em relação aos outros… Jesus sugere, também, que para o “banquete do Reino” todos os homens são convidados; e que a gratuidade e o amor desinteressado devem caracterizar as relações estabelecidas entre todos os participantes do “banquete”.
Na primeira leitura, um sábio dos inícios do séc. II a.C. aconselha a humildade como caminho para ser agradável a Deus e aos homens, para ter êxito e ser feliz. É a reiteração da mensagem fundamental que a Palavra de Deus hoje nos apresenta.
A segunda leitura convida os crentes instalados numa fé cómoda e sem grandes exigências, a redescobrir a novidade e a exigência do cristianismo; insiste em que o encontro com Deus é uma experiência de comunhão, de proximidade, de amor de intimidade, que dá sentido à caminhada do cristão. Aparentemente, esta questão não tem muito a ver com o tema principal da liturgia deste domingo; no entanto, podemos ligar a reflexão desta leitura com o tema central da liturgia de hoje – a humildade, a gratuidade, o amor desinteressado – através do tema da exigência: a vida cristã – essa vida que brota do encontro com o amor de Deus – é uma vida que exige de nós determinados valores e atitudes, entre os quais avultam a humildade, a simplicidade, o amor que se faz dom.

domingo, 21 de agosto de 2016

A Salvação




Vigésimo Primeiro Domingo do Tempo Comum


A liturgia deste Domingo propõe-nos o tema da “salvação”. Diz-nos que o acesso ao “Reino” – à vida plena, à felicidade total (“salvação”) – é um dom que Deus oferece a todos os homens e mulheres, sem excepção; mas, para lá chegar, é preciso renunciar a uma vida baseada nesses valores que nos tornam orgulhosos, egoístas, prepotentes, auto-suficientes, e seguir Jesus no seu caminho de amor, de entrega, de dom da vida.
Na primeira leitura, um profeta não identificado propõe-nos a visão da comunidade escatológica: será uma comunidade universal, à qual terão acesso todos os povos da terra, sem excepção. Os próprios pagãos serão chamados a testemunhar a Boa Nova de Deus e serão convidados para o serviço de Deus, sem qualquer discriminação baseada na raça, na etnia ou na origem.
No Evangelho, Jesus – confrontado com uma pergunta acerca do número dos que se salvam – sugere que o banquete do “Reino” é para todos; no entanto, não há entradas garantidas, nem bilhetes reservados: é preciso fazer uma opção pela “porta estreita” e aceitar seguir Jesus no dom da vida e no amor total aos irmãos.
A segunda leitura parece, à primeira vista, apresentar um tema um tanto deslocado e marginal, em relação ao que nos é proposto pelas outras duas leituras; no entanto, as ideias propostas são uma outra forma de abordar a questão da “porta estreita”: o verdadeiro crente enfrenta com coragem os sofrimentos e provações, vê neles sinais do amor de Deus que, dessa forma, educa, corrige, mostra o sem sentido de certas opções e nos prepara para a vida nova do “Reino”.