terça-feira, 24 de maio de 2016

Contra a violência sexual


· Um seminário em Roma ·
23 de Maio de 2016
A reunião teve lugar a portas fechadas, num lugar afastado de Roma, porque muitas das religiosas e religiosos participantes arriscariam a vida, se se soubesse o que fazem. E contudo compreendeu-se que a arriscam de igual modo. De facto, é muito perigoso procurar defender as mulheres em países nos quais domina incontrastada a guerra civil, que comporta uma violência contínua e inexorável: um capuchinho congolês falou de trezentas mulheres por dia só na sua região. Trata-se de uma realidade terrível, da qual não se fala muito, ou então é mencionada só para dizer «sempre foi assim». E fala-se ainda menos de quem procura remediar a esta tragédia.
Foi a baronesa Anelay of St. Johns, ministra e representante especial do primeiro-ministro britânico para a prevenção da violência sexual nos conflitos, quem quis este encontro, organizado pelo embaixador da Grã-Bretanha junto da Santa Sé com a ajuda do Pontifício conselho «Justiça e Paz». A baronesa afirmou que só unindo os esforços se pode obter algum resultado tangível, e que é necessário não só assistir as vítimas e ajudá-las, mas trabalhar para transformar o contexto cultural no qual vivem, onde as violências são removidas e escondidas, e as mulheres induzidas ao silêncio.
E sobretudo é necessário combater contra a impunidade que quase sempre protege os violentadores, nunca punidos pelos seus crimes. Esta impunidade, obviamente, mais não faz do que favorecer o reiterar-se da violência. Por isso a ministra britânica elaborou um protocolo – assinado por 140 países – que contém instruções pormenorizadas para iniciar as investigações, a fim de proteger as testemunhas e as mulheres que aceitam falar, para ajudar advogados e juízes a enfrentar um problema para o qual não foram preparados. Em muitos países mais a risco a difusão do protocolo foi acompanhada por cursos especiais para advogados e juízes, de maneira a pô-los em condições de tratar um tema que para eles é novo, e a fim de encontrar e neutralizar os juízes corruptos. A punição dos culpados dá às mulheres a força de falar, de revelar a violência sofrida, e ajuda-as a não se sentirem culpadas do que aconteceu.
Em suma, trata-se de um trabalho complexo de transformação cultural, para fazer compreender a todos, sobretudo às mulheres, uma realidade inegável: elas são pessoas dignas de respeito e, mesmo se foram objeto de violência, têm o direito de participar na vida comunitária, de viver no seu país e com as suas famílias. É um trabalho cultural que serve ainda para fazer face ao perene conflito de maneira mais ativa: de facto, com as violências contínuas os bandos de predadores mantêm populações inteiras em estado de sujeição.
O protocolo refere-se apenas a casos de violência ligados aos conflitos, mas sabemos que não há só estes. Com efeito, se as mulheres reencontrarem a confiança em si mesmas, se aprenderem a falar e a denunciar, conseguiremos pôr fim também aos abusos cometidos no âmbito das próprias instituições, de todas as instituições.
A narração de tantas experiências corajosas, de tantas vidas heroicas desconhecidas, ofereceu uma imagem da Igreja diversa daquela que estamos habituados a ver: uma Igreja disposta a tudo para defender os mais débeis, uma Igreja capaz de mudar o mundo. Foi a esta Igreja que a baronesa Anelay pediu colaboração. E obteve-a.
Lucetta Scaraffia

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